MINISTÉRIO DA CULTURA Fundação Biblioteca Nacional Departamento Nacional do Livro A ORGIA DOS DUENDES Bernardo Guimarães I Meia-noite soou na floresta No relógio de sino de pau; E a velhinha, rainha da festa, Se assentou sobre o grande jirau. Lobisome apanhava os gravetos E a fogueira no chão acendia, Revirando os compridos espetos, Para a ceia da grande folia. Junto dele um vermelho diabo Que saíra do antro das focas, Pendurado num pau pelo rabo, No borralho torrava pipocas. Taturana , uma bruxa amarela, Resmungando com ar carrancudo, Se ocupava em frigir na panela Um menino com tripas e tudo. Getirana com todo o sossego A caldeira da sopa adubava Com o sangue de um velho morcego, Que ali mesmo co’as unhas sangrava. Mamangava frigia nas banhas Que tirou do cachaço de um frade, Adubado com pernas de aranhas, Fresco lombo de um frei dom abade. Vento sul sobiou na cumbuca, Galo-preto na cinza...